Empresas congelam dentes de leite para extração e armazenamento de células-tronco

Empresas congelam dentes de leite para extração e armazenamento de células-tronco
dezembro 02 14:26 2015 Imprimir este Artigo
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O material genético mantido sob condições adequadas não tem prazo de validade

Um investimento para a saúde. É assim que os pais podem começar a enxergar a fase da troca de dentes dos filhos. Muitos guardam de recordação, transformam em pingentes ou estimulam os pequenos a colocá-los embaixo do travesseiro, à espera da fada do dente. Poucos sabem que os primeiros dentes da criança podem ser úteis para o tratamento de diversas doenças e estudos científicos.

Pesquisas na área de genética revelaram que a polpa (parte mais interna) dos dentes de leite possui uma grande quantidade de células mesenquimais (células-tronco), responsáveis pela formação dos tecidos ósseos, cartilaginosos, musculares e adiposo. Por isso, uma técnica inédita de extração, expansão e criopreservação de células-tronco da polpa do dente de leite é disponibilizada aos brasileiros desde 2013. No entanto, os custos ainda são altos e sequer estão sendo discutidos pela área de saúde pública. Em média, as empresas que já oferecem o serviço em São Paulo e Campinas cobram R$ 2.000 iniciais e mais R$ 400 por ano.

O processo é não-invasivo e permite que as células sejam expandidas em ampla quantidade e qualidade para utilização posterior. As empresas especializadas nesse serviço, oferecem profissionais treinados que realizam uma investigação da saúde da criança e fazem a indicação do dente a ser extraído e o melhor momento para isso. Após o procedimento, o dente de leite é encaminhado para o laboratório, onde as células-tronco são isoladas da polpa do dente e passam pelo processo de multiplicação e controle de qualidade, sendo posteriormente congeladas, um processo conhecido como criopreservação.

Em paralelo, também é realizado o mapeamento genético da criança, o que propicia o conhecimento do seu potencial individual referente à nutrição, saúde, esportes e resposta a medicamentos. “É possível observar uma procura maior por esse tipo de coleta, principalmente porque as células-tronco podem ser utilizadas para o tratamento de três gerações acima do doador. Também aceitamos doações desses dentes, que podem ser feitas através do departamento de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP)”, afirma o diretor-clínico do Centro de Criogenia Brasil (CCB), da Capital, Carlos Alexandre Ayoub.

O método foi concebido durante estudos realizados pelo diretor-presidente e fundador da empresa R-Crio, de Campinas, inaugurada em 2014, José Ricardo Ferreira, em comunhão com pesquisadores da USP. A expansão celular ocorre em laboratório em condições controladas e seguindo rigorosas normas internacionais de conduta. Os interessados no método devem, primeiramente, consultar um dos dentistas credenciados pela empresa, pois são treinados para o procedimento. Há profissionais habilitados nas cidades de Americana, Campinas, Valinhos e Paulínia.

O procedimento inclui uma consulta que vai identificar qual dente de leite será utilizado no procedimento e quando ele estará apto a ser extraído. O paciente ainda será submetido a exames sorológico e de radiografia periapical. Os dentes extraídos são encaminhados para o laboratório da R-Crio ou da CCB em até 72 horas. O serviço de armazenamento em criogenia das células-tronco pode ter três, cinco ou dez anos de duração, com possibilidade de renovação do prazo.

Cristina Bittecourt aderiu no ano passado ao congelamento dos dentes de leite dos filhos Felipe, de 10 anos, e Catarina, de 8. A advogada conta que o interesse pelo serviço surgiu, principalmente, após a morte de seu pai, aos 66 anos, por disfunção da medula óssea (mielofibrose). “Penso na saúde das crianças por conta da ocorrência dessa doença na minha família. Então, se posso fazer algo para ter uma segurança a mais no futuro não perco a oportunidade. Sem contar que, pensando em todos os benefícios, os valores que pago não são altos”, disse em entrevista ao Diário i.

O diretor-presidente e fundador da empresa R-Crio, de Campinas, inaugurada em 2014, José Ricardo Ferreira, explica que um ponto positivo da criopreservação é que a perda dos dentes de leite é um processo natural, ocorre dos seis aos 12 anos, portanto não é preciso intervenção. “Desse modo, é possível realizar indicações de hábitos de vida ou de medidas terapêuticas profiláticas que poderão potencializar, minimizar ou silenciar a expressão de determinados genes da criança”, explica Ferreira.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as empresas podem oferecer o serviço de criopreservação, mas sem prometer tratamento para nenhuma doença, porque a eficácia do método ainda está em processo de avaliação. Essa informação, inclusive, de acordo com a Anvisa, deve estar clara em contrato.

 

Por Bárbara Leão

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